Escrever sobre a minha área de trabalho, sobre a matéria que transformo todos os dias e sobre o que, com tais ferramentas produzo, no contexto do meu atual campo de ação, obrigou-me a refletir, na forma como eu sinto a minha profissão e em tudo o que lhe é inerente. Ou seja, desde o meu primeiro contato com tão especial matéria prima, o barro.
A conclusão a que cheguei resultou neste texto, que reproduz apenas a minha visão e que é produto do meu sentir, não obstante de percecionar amiúde tais valores e sentimentos nos outros.
Contudo é uma opinião naïf, face a todos os grandes profissionais, técnicos e investigadores, que, com alguns tenho e tive a honra de partilhar caminho e que dedicam a sua vida a melhorar e descobrir novos horizontes no campo da Estimulação e Inclusão Sensorial.
Eu sou, apenas, um rudimentar instrumento, nesse percurso.
“Teria eu 8 anos e ainda permanece em mim o cheiro doce e envolvente, proveniente da diversidade dos produtos da loja onde comprei o meu primeiro pedaço de barro. Uma Ervanária, perto da minha escola, onde eu esperançada, daria corpo ao que trazia em mente de transformar pela primeira vez. Muito ansiosa com o novo material, expectante com as minhas capacidades criadoras, mas cheia de reservas quanto aos resultados finais e francamente preocupada com o impacto que produziria nos outros, face ao que seriam os resultados do meu desempenho. Mas, quando toquei no barro pela primeira vez, foi como se a minha pele falasse com um velho amigo.”
Hoje volvidos tantos anos, pouco na forma como me fascino, exploro, ou realizo, o que existe em mim no mundo e para o mundo, mudou. Curiosamente até aos dias de hoje, a Cerâmica sofreu pouca evolução nas suas técnicas primárias, acrescentando apenas, procedimentos e novas técnicas e ferramentas, que viabilizaram a rapidez, destreza e perícia dos seus executores, adequando-se ao impulso industrial e por fim tecnológico, apenas nos últimos dois seculos.
Falar sobre a Cerâmica é falar de um incrível registo físico na História da Humanidade, atravessando milénios de transformação pessoal, cultural, politica e religiosa, de todos os povos do mundo.
O acaso da descoberta do fogo, trouxe ao homem a importante descoberta da transformação da terra (barro) em cerâmica (arte de transformar o barro), após esta, ao redor da fogueira, endurecer substancialmente devido à temperatura a que era sujeita. A esta tecnologia rudimentar chamamos de cerâmica primitiva.
A modelação uma das maiores ferramentas da cerâmica surge como processo transformador, dando forma à matéria prima, adequando-a às necessidades de armazenamento de alimentos e de outros produtos geradores de segurança, bem-estar e expressão no seu quotidiano. A dureza adquirida conferia à matéria durabilidade e resistência, habilitando-a ao uso doméstico. A observação deste processo fez nascer o desejo ainda que rudimentar de moldar a terra a uma forma desejada (cerâmica criativa) ou a uma necessidade sentida (cerâmica utilitária). Nasceu assim uma das primeiras profissões do mundo, a minha! Contemporânea à vida de milhares de homens e mulheres de diferentes Eras, que tão bem e com tanta perícia e arte, a exerceram concedendo ao mundo, o mais duradouro e resistente registo da Humanidade.
A cerâmica nasceu há cerca de 20 mil anos na vida do homem primitivo, no Período Paleolítico (não sendo a data consensual) numa era de importantes descobertas, intrínsecas à natureza humana, à natureza do seu meio envolvente. No período do Neolítico surgem as primeiras comunidades, em que o sedentarismo deu lugar ao nomadismo e tal mudança de hábitos, permitiu a utilização de múltiplas faculdades em ascensão, tais como a concentração, a observação e o discernimento, permitindo a compreensão do comportamento das imensas matérias primas ao deu dispor e o uso da sua versatilidade. Matérias essas que buliram inesperadamente com os sentidos humanos, permitindo-lhe usufruir ainda que inconscientemente de inúmeros benefícios, que hoje entendemos por Estimulação Sensorial.
“Tinha 11 anos quando voltei a encontrar-me com o barro. Desta vez longe da loja e da escola.
Fui viver para o campo havia um ano. Na altura nas proximidades abriram um poço eu e os miúdos do bairro fomos explorar. A lama não os fascinou tanto quanto a mim, que reconheci de imediato os cheiros, a textura e plasticidade da argila, ainda que em estado puro. Era branca, fina e cheia de ciscos e pequenas pedras, mas era tão fria, plástica e cheia de potencialidade, como o meu primeiro barro. Divergiam apenas em cor.
Este novo encontro trouxe-me à memoria a incrível experiencia como o barro vermelho. Tinha tido muito sucesso com as minhas primeiras obras modeladas, e a sensação de bem-estar e realização ainda me era presente. Nasceu então uma vontade de a repetir, sem os preceitos modeladores da minha professora. Estava por minha conta e risco, só tinha que libertar a parte argilosa, da terra e de todas as impurezas que se lhe agarravam. Lembrei-me da peneira do meu pai e ainda que corresse o risco de a estragar, a vontade que tinha de voltar a moldar destemeu-me. Assim sequei a argila ao sol, esmaguei-a com um seixo e coloquei-a dentro de um balde de água. Depois de obter uma calda homogénea, passei-a pelo crivo da peneira, libertando-a de todas as impurezas. Voltei a seca-la ao sol, apenas o suficiente para poder envolve-la e amassa-la e por fim, obtive um barro branco fino e extremamente plástico. Como o fiz? Ainda hoje me pergunto como desenvolvi com tenra idade, todo o processo de recuperação e preparação que o barro exige, sem conhecimento dos segmentos envolvidos neste processo. Acredito que talvez, da mesma maneira que o homem primitivo o conseguiu. Um processo até hoje repetido e usados na preparação de pastas simples.”
De fato, a maneira como compreendemos, aprendemos e interagimos com o meio envolvente, é contemporânea ao homem de hoje. Sempre de forma singular, processamos constantemente uma imensa quantidade de estímulos recebidos desde que nascemos, adequando-os ao que já compreendemos, permitindo-nos também compreender o que de novo exploramos, em redor. Através dos sentidos que cada um possui, promovemos inconscientemente a experimentação, observação e manipulação que nos permite registar informação e desenvolver ferramentas e processos preciosos à interação, ao desenvolvimento motor assim como nos aguçam a concentração e a atenção, estimulando quase sempre o desejo de criar.
A cerâmica tem com o ceramista, uma ligação profundamente emocional. Muito mais do que uma profissão, é um por excelência um enamoramento permanente, que não compromete o criador face ao cansaço, devido à atração tanto física como emocional que o barro exerce sobre o barrista.
A cerâmica criativa concede a quem a pratica, um conjunto de benefícios que contribuem e causam bem-estar. O simples ato de criar é um estado de auto capacitação e auto motivação pois determina no criador, no início da ideia, a confiança necessária, para impulsionar tal processo.
Todos nós somos criadores, na medida em que interagimos com os estímulos que observamos, transformando a realidade em redor, em experiências físicas e anímicas e que nos proporcionam emoções incríveis.
Os sentimentos vivenciados durante os processos de construção e transformação da matéria, não obstante de as emoções envolvidas, serem positivas ou negativas, são de facto o aspeto mais estimulante a tratar na prática da área da cerâmica.
São exatamente os estímulos exteriores, que bulem com a nossa extrema sensibilidade, promovendo a vontade de manipular a “matéria” em busca do que idealizamos estar de acordo, com o que realmente sentimos.
E matéria é tudo!
Tudo ao nosso redor é material de pesquisa, registo de interesse, matéria pronta a transformação. Tudo serve para a interação e, cabe ao potencial criativo de cada um, ter sucesso na transformação da matéria que escolheu manipular.
A diversidade criativa de cada um, vem de dentro refletindo-se no exterior, assim como a curiosidade que desperta os sentidos, mas é de facto o que nos rodeia, o que não nos é uno, que nos estimula e determina a nossa evolução.
Mas nem sempre o criador tem controlo sobre matéria, de facto quase nunca. É por isso que as pessoas se especializam em função dos seus pontos de interesse. E quanto maior é o seu interesse, maior o seu envolvimento e construção, maior é o seu domínio e fascínio. Tudo na nossa vida nasce de um sentimento criativo. E tudo o que sentimos é tão único como a nossa pele.
Em arte terapia não se objetiva a criação de obras de arte, mas sim a construção de emoções, sensações e de reações, recorrendo a esta ferramenta como forma a inverter os processos no despertar criativo, não como objeto de interesse, mas como objeto reativo.
A pele tem um incrível papel nas emoções. É através do tato que exploramos a maior parte do que nos estimula no exterior, mas somos todos diferentes, não possuindo de facto todas as faculdades nem todos os sentidos, pelas mais diversas razões.
A terra nos seus diferentes contextos, tem cheiro próprio, sabor próprio, temperatura própria e texturas incrivelmente sensuais que se manifestam para os sentidos humanos como bálsamos naturais, estimulantes e promotores de bem-estar.
O barro é terra! E por ser uma matéria-prima, tem na sua génese, materiais orgânicos e minerais, semelhantes aos que existem no nosso organismo que também se compreende como matéria prima, beneficiando-se assim através da pele, de múltiplas maneiras, criando uma simbiose primordial nos sentidos humanos, físicos e emocionais.
Do atracão das matérias (o Animal e a Terra), animada e inanimada, compreendo que se despertem memórias ancestrais. Como se a carne se reconhecesse no pó da terra e vivenciasse sentimentos enraizadas no subconsciente coletivo, ainda que sentidos de forma singular, estimulando pedaços de poesias, de momentos intensos, vividos e revividos a cada instante e a cada toque. Todo o sensorial despertado e tão sobejamente incompreendido.
Texto da autoria de: Cristina Santos, Responsável da Oficina de Cerâmica do Centro de Atividades Ocupacionais da Fundação AFID Diferença
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