A Cerâmica, o Barro e a Estimulação Sensorial

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Escrever sobre a minha profissão, sobre a matéria que transformo todos os dias e sobre o que, com tais ferramentas produzo, no contexto do meu campo de ação, obrigou-me a refletir, na forma como eu a sinto e sobre tudo o que lhe é inerente, desde o meu primeiro contacto com tão especial matéria prima, o barro. De facto, nunca tinha pensado no meu percurso que na sua forma holística, descobrindo-o, agora, como uma constante experiência sensorial. E, observando a forma como tudo acontece, muitas vezes sem grande compreensão ou noção das imensas faculdades que possuímos desde tenra idade, para mim, não há outro caminho, senão a deslumbrante consciência e experiência sensorial de que é feita a vida.

Depois de me debruçar sobre esta matéria, preparando-me para as exigências deste desafio,  compreendi a extrema importância dos meus sentidos na minha construção cognitiva, com todos os processos que me permitiram e que facultaram o bom uso das minhas capacidades inatas, em tudo o que experimentei através delas, mas e sobretudo, a transformação de toda a  informação processada, concedendo-me conhecimento e capacidade na  construção das ferramentas que hoje me permitem, proporcionar a outros, ambiências e experiências sensoriais.

Mas é uma opinião muito intuitiva, que resulta de uma nova experiência sem dúvida sensorial, assentando na pesquisa e reflecção, sobre um tema, que representa o meu quotidiano, mas sobre o qual nunca tinha percecionado a intrínseca relação na construção da minha personalidade e no meu “modus faciendi”. Ainda um pouco longe é certo, do grande trabalho dos excelentes profissionais, técnicos e investigadores, que, com alguns, tenho e tive a honra de partilhar caminho e que dedicam a sua vida a melhorar e descobrir novos horizontes no campo da Estimulação e Inclusão Sensorial. Estou em crescimento e sinto-me feliz por ser um instrumento, nesse percurso.

De facto, é surpreendentemente descobrir em muito tenra idade, uma área que em nós é inata, que a dominamos com grande perícia e sem qualquer tipo formação ou informação especifica. Além da enorme satisfação por nos destacarmos em tal domínio, poucas são as vezes que nos propomos questionar a importância da mesma na nossa vida. Invariavelmente o que é inato em nós é colocado para segundo plano, no que diz respeito à construção do nosso futuro e dissuadido em favor de vontades e aspirações alheias à nossa. E é totalmente desvalorizada a extrema importância da sua origem. Talvez porque culturalmente atribuímos ao “prazer” que uma determinada área nos concede, um sentido pouco sensato, acabando por desvirtuar as primeiras impressões que as nossas naturais aptidões nos concedem, enveredando por escolhas avessas às nossas capacidades e potencialidades, quase sempre com grande dano emocional e físico no futuro. Acredito que essa desvalorização também seja cultural, corroborada pela forma desajustada como a sociedade se impõe, através de valores e métodos de uma educação obsoleta face à natureza criativa de cada um de nós.

Desde a infância, que somos sobejamente esmagados e conformados a um modelo que justifica que devemos superar as nossas limitações através numa senda de estudos obrigatórios, que comprovam e validam, em autoridade pré-estabelecida pela sociedade, competências e saberes imprescindíveis na busca e superação, do grande objetivo pessoal: A realização pessoal!

Mas a realização pessoal não pode ser facultada por caminhos alheios, baseados e justificados em experiências de outros e sem praticabilidade contemporânea. Tem que ser buscada, experienciada e sentida sob o perigo de nos conformarmos. E, a conformação é um perigo para os sentidos, quando o decidimos fazer, subtraímos felicidade e prazer de ser, concedendo espaço à frustração, o que invariavelmente conduz à perda de saúde mental e física, quase sempre irreparável. Tudo porque não valorizamos a Estimulação Sensorial na nossa vida, entendendo-a como uma ferramenta apenas necessária a outras pessoas, que não nós, mas que devido a algumas limitações, necessitam de tal ferramenta para reagir ou progredir.

Mas a Estimulação Sensorial, não é uma ferramenta! É um processo coadjuvante das nossas faculdades cognitivas, de extrema importância para a nossa compreensão e interação com o nosso meio em redor, e resumidamente, a porta aberta, para a fonte de todos os recursos necessários à nossa realização. Intrínseca ao ser humano, descurar tal “porta de entrada” é desvirtuar a nossa forma de sentir, é perturbar e equivocar a boa compreensão do que nos faz bem, do prazer que nos concede e da felicidade que promove constantemente, conduzindo-nos num caminho consciente e envolvido na experiência, na construção e plena realização do nosso percurso. É de facto através dos sentidos que compreendemos e nos compreendemos no mundo. De tão simples que é, muito difícil se revela de conseguir.

“Teria eu 8 anos e ainda permanece em mim o cheiro doce e envolvente proveniente da diversidade dos produtos da loja onde comprei o meu primeiro pedaço de barro. Foi numa ervanária, perto da escola primária onde eu esperançada, daria corpo ao que trazia em mente de transformar, pela primeira vez.

Estava ansiosa com o novo material, expectante com as minhas capacidades criadoras, mas cheia de reservas quanto aos resultados finais e francamente preocupada com o impacto que produziria nos outros, face ao meu desempenho. E quando toquei no barro pela primeira vez, foi como se a minha pele falasse com um velho amigo. Hoje volvidos tantos anos, pouco na forma como me fascino, exploro, ou realizo o que existe em mim no mundo e para o mundo, mudou.”

 Até hoje nunca tinha pensado neste episódio da minha vida, como uma experiência Sensorial, talvez das mais marcantes da minha vida. Foi este o contexto, já tão rico em experiências, que me proporcionou o que demarcou um longo e intenso percurso a que devo, a minha realização profissional e pessoal, a minha fonte de criatividade, as ferramentas da minha construção e evolução, o meu sustento.

De facto, a estimulação sensorial é o que nos permite o bom uso de todos os sentidos, que nos permite a compreensão do meio envolvente, a análise dos recursos disponíveis, o discernimento e capacidade de construção a que ajustamos a uma ideia criadora, devolvendo à natureza das matérias o objeto do nosso ideal. A estimulação é uma função cognitiva intrínseca ao ser humano, catalisadora das grandes transformações físicas e emocionais, talvez a função mais importante que conduziu o ser humano à sua constante evolução e drasticamente a grande destruição da natureza. Porque esta e uma função egoísta, centrada na pessoa, e o modo como a exerce determina o grau de abrangência no seu campo de ação.

Mas ao longo da vida procuramos estímulos, ignorando o que realmente nos estimula, refazemos experiências que saciem uma insatisfação constante, ignorando a vontade de experimentar o novo. E deixamos à deriva a nossa busca pessoal, em favor do que os conceitos da nossa personalidade tolhida de sentidos, maquinizada, considera ser a certa face ao dever, à necessidade e as exigências exteriores, na nossa sobrevivência. Esforços infrutíferos e inconscientes que nos levam por caminhos em busca de sentidos insatisfeitos. Usamos tecnologias e hobbies e ambiências artificiais, para suportar um quotidiano de experiências impessoais, receitadas e instituídas por uma sociedade equivocada, porque no fundo, bem no fundo o nosso cognitivo, sabe que só animamos e evoluímos, através dos estímulos que nos concedem prazer, estímulos ancestrais que se manifestam logo, quando nascemos. E inconscientemente agarramo-nos e suspiramos por sonhos adiados, que empurramos para o fim do caminho, quando quem sabe, com o tempo que a idade nos disponibiliza em fim de vida com sorte, os possamos realizar. Adiamos, desejos, prazeres e realizações, porque no fundo, bem no fundo, sabemos e sempre soubemos a enorme responsabilidade nas escolhas que fizemos em detrimento do que tanto desejávamos ter escolhido.

E essa consciência intuitiva presente em tenra idade, só se permite impor, muitos anos mais tarde, quando a experiência nos demonstra que por inúmeros fatores, corrompemos ou deixamos corromper, um sentido primordial, ao não ter sabido acreditar no que vulgarmente identificamos como dons. E um dom é companheiro de um sentido extra, que nos mostra o caminho. Há quem lhe chame sexto sentido. É um apelo gritante ao uso absoluto da Estimulação Sensorial, o único processo possível na destrinça e compreensão das nossas grandes potencialidades. E quem se descobre no seu Don, vive contra corrente, mas vive a vida em constante sintonia com as vibrações provindas dos seus sentidos, devolvendo de forma sublime ao mundo, o expoente máximo do uso de todos os seus sentidos.

Chamam-lhes génios, pessoas com dons extraordinários, com uma sensibilidade fora de comum, pessoas especiais e invulgares. Mas eu acredito que todos nascemos com um dom, uma orientação especifica que quando cultivada, se revela com excelência nas experiências e percursos de cada um. E não precisam de ser manifestações artísticas, pois considero a Arte um resultado de bem ser, e bem saber, de bem fazer e de descobrir como. Acredito que as pessoas realizadas, colocam em primeiro plano o prazer de sentir tudo o que vivenciam, que tenham simplesmente tido consciência das suas capacidades desde que se entendem , que tenham acreditado e aceite as suas potencialidades ainda que só lhe façam sentido a si mesmas. Que tenham sido obstinados na sua busca, e que tenham tido sorte na ambiência em que nasceram. Tudo porque se concederam a experienciar tudo o que Estimulação Sensorial promove no ser humano.

E eu tive sorte, tive muita sorte. Sorte por ter sido persistente, ainda que inconsciente de tão extraordinário e simbiótico processo vital em que investi. Sei que muitos despertam precocemente, sei que outros recuam caminho e recuperam o que descuraram por diversos fatores, sei que outros são protegidos e incentivados e outros ainda, são tardios na descoberta e consciencialização dos seus processos de construção individual. E são raros, apenas por isso. Porque todos nascemos com um propósito diferente, com Dons diferentes, os quais exploraram e dos quais usufruíram, através da expressão máxima no uso dos seus sentidos. Acredito que se compreendêssemos a simplicidade do complexo processo que é a Estimulação Sensorial, todos os homens e mulheres, resultariam em seres extraordinariamente bem-sucedidos, responsáveis e felizes, proactivos e muito responsáveis na sua interação social e ambiental. Felizmente são muitos e, todos percursores da evolução em si e no mundo.

Compreendo agora a extrema importância da Estimulação Sensorial na descoberta da Cerâmica. E como terá acontecido? Que processo cognitivo terá tido responsabilidade na descoberta, compreensão e domínio destes procedimentos? A estimulação Sensorial!

Falar sobre a Cerâmica é falar de um incrível registo físico, que acompanha e regista a História da Humanidade, atravessando milénios de transformação pessoal, cultural, política e religiosa, a que todos os povos foram sujeitos.

A descoberta do fogo trouxe ao homem e através do acaso a importante descoberta da transformação da terra (Barro) em cerâmica (Arte de transformar o barro), após esta, ao redor da fogueira, endurecer substancialmente devido à temperatura a que era sujeita.

A cerâmica nasceu assim há mais de 25 mil anos na vida do Homem primitivo, no Período Neolítico, numa Era de importantes descobertas, intrínsecas à Natureza Humana e à Natureza no seu meio envolvente. Época esta, contemporânea à formação das primeiras comunidades, em que o sedentarismo, deu lugar ao nomadismo, trazendo para o seu quotidiano a noção do “tempo cíclico” face ao lugar permanente onde se escolheram instalar.

Tal mudança de hábitos, permitiu a utilização de múltiplas faculdades em ascensão, tais como a concentração e a observação, a compreensão e o discernimento, permitindo a assimilação do comportamento das imensas matérias primas naturais ao deu dispor e o uso da sua preciosa versatilidade. Matérias essas, que buliram inesperadamente com os sentidos do homem primordial, permitindo-lhe usufruir ainda que inconscientemente do que hoje entendemos, por Estimulação Sensorial.

 “Tinha 11 anos quando voltei a encontrar-me com o barro. Desta vez longe da loja e da escola”.

Fui viver para o campo havia um ano. Na altura nas proximidades abriram um poço eu e os miúdos do bairro fomos explorar.  A lama não os fascinou tanto quanto a mim, que reconheci de imediato os cheiros, a textura e plasticidade da argila, ainda que em estado puro. Era branca, fina e cheia de ciscos e pequenas pedras, mas era tão fria, plástica e cheia de potencialidade, como o meu primeiro barro. Divergiam apenas em cor.

Este novo encontro trouxe-me à memoria a incrível experiência como o barro vermelho. Tinha tido muito sucesso com as minhas primeiras obras modeladas, e a sensação de bem-estar e realização ainda me era presente. Nasceu então uma vontade de a repetir, sem os preceitos modeladores da minha professora. Estava por minha conta e risco, só tinha que libertar a parte argilosa, da terra e de todas as impurezas que se lhe agarravam. Lembrei-me da peneira do meu pai e ainda que corresse o risco de a estragar, a vontade que tinha de voltar a moldar destemeu-me. Assim sequei a argila ao sol, esmaguei-a com um seixo e coloquei-a dentro de um balde de água. Depois de obter uma calda homogénea, passei-a pelo crivo da peneira, libertando-a de todas as impurezas. Voltei a seca-la ao sol, apenas o suficiente para poder envolve-la e amassa-la e por fim, obtive um barro branco fino e extremamente plástico.”

Como o fiz? Ainda hoje me pergunto. Como poderia eu ter desenvolvido tao jovem, todo o processo de recuperação e preparação que o barro exige, sem conhecimento dos segmentos envolvidos neste processo. Acredito que a minha condição Humana encontrou o caminho da mesma maneira que o homem primitivo o conseguiu. Através da Estimulação sensorial consegui reconhecer a matéria prima que por via de uma primeira experiência, já tinha registado na memória e devido ao meu desejo de a reproduzir, propus-me a observar, experimentar, compreender e discernir para poder elencar os processos necessários à extração da matéria prima (objeto do meu desejo).

De facto, a maneira como compreendemos, aprendemos e interagimos com o meio envolvente, é cíclica e contemporânea ao homem de hoje. Sempre de forma singular, processamos constantemente, uma imensa quantidade de estímulos, recebidos desde que nascemos, adequando-os ao que já compreendemos, permitindo-nos também compreender o que de novo exploramos, em redor. Através dos sentidos que cada um possui, promovemos inconscientemente a experimentação, observação e manipulação que nos permite registar informação e desenvolver ferramentas e processos preciosos à interação, ao desenvolvimento motor assim como nos aguçam a concentração e a atenção, estimulando quase sempre o desejo de criar.

E meteria é tudo!

Tudo ao nosso redor é material de pesquisa, registo de interesse, matéria pronta a transformação. Tudo serve para a interação e, cabe ao potencial criativo de cada um, ter sucesso na transformação da matéria que escolheu manipular.

Física ou anímica cada um de nós observa e sente através da sua sensibilidade pessoal, que nunca é constante, sendo sempre diferente entre as pessoas e nas próprias pessoas. Por isso é único e são raras as vezes que duas pessoas sentem o que veem, exatamente da mesma forma, ainda que possuam uma sensibilidade muito parecida.

E se facto a imensa versatilidade do ser humano que nos faculta as imensas ferramentas que dispomos e inventamos, para continuamente nos possamos construir como seres melhores, todos os dias.

A cerâmica e uma das tecnologias mais antigas da Humanidade. E uma área que agrupa um conjunto de processos que conduzem e viabilizam a manipulação, conformação e transformação da sua matéria prima: o Barro, encontrado sobejamente na terra na sua forma mais pura, a argila. Curiosamente até aos dias de hoje, a Cerâmica sofreu pouca evolução nas suas técnicas primárias, acrescentando apenas, procedimentos e novas técnicas e ferramentas, que viabilizaram a rapidez, destreza e perícia dos seus executores, adequando-se ao impulso industrial e por fim tecnológico, apenas nos últimos dois seculos.

A modelação é uma das maiores ferramentas da Cerâmica e surge como processo transformador, dando forma à matéria prima, adequando-a às necessidades de armazenamento de alimentos e de outros produtos geradores de segurança, bem-estar e expressão no seu quotidiano.

A dureza adquirida, conferiu à matéria durabilidade e resistência, habilitando-a ao uso doméstico. A observação deste processo fez nascer o desejo ainda que rudimentar, de moldar a terra a uma forma desejada (Cerâmica criativa) ou a uma necessidade sentida (Cerâmica utilitária). Nasceu assim uma das primeiras profissões do mundo, que com muito prazer a considero como forma de vida, a minha! Uma forma de construir a vida contemporânea à de milhares de homens e mulheres de diferentes Eras, que tão bem e com tanta perícia e arte, a exerceram concedendo ao mundo, o mais duradouro e resistente registo da Humanidade.

Porque a Cerâmica tem com o ceramista, uma ligação profundamente emocional. Muito mais do que uma profissão, é um por excelência um enamoramento permanente, que não compromete o criador face aos resultados, mas sim com o prazer de criar.

“quando crio, eu me declaro…quando concluo eu me manifesto”

A cerâmica criativa concede a quem a pratica, um conjunto de benefícios que contribuem e causam bem-estar. O simples ato de criar é um estado de auto capacitação e auto motivação pois determina no criador a confiança necessária para impulsionar tal processo. Todos nós somos criadores, na medida em que interagimos com os estímulos que observamos, transformando a realidade em redor, em experiências físicas e anímicas e que nos proporcionam emoções incríveis.

Os sentimentos vivenciados durante os processos de construção e transformação da matéria, não obstante de as emoções envolvidas, serem positivas ou negativas, são de facto o aspeto mais estimulante a tratar na prática da área da cerâmica. São exatamente os estímulos exteriores, que bulem com a nossa extrema sensibilidade, promovendo a vontade de manipular a “matéria” em busca do que idealizamos estar de acordo, com o que realmente sentimos.

“O que eu sinto em relação ao que vejo, é tão único como a minha pele.”

A diversidade de cada um vem de dentro, refletindo-se no exterior assim como a curiosidade que desperta os sentidos, mas é de facto o que nos rodeia, o que não nos é uno, que nos estimula e determina a nossa evolução. Mas nem sempre o criador tem controlo sobre matéria. De facto, quase nunca. É por isso que as pessoas se especializam em função dos seus pontos de interesse.  E quanto maior é o seu interesse, maior o seu envolvimento e construção, maior é o seu domínio e fascínio, porque tudo na nossa vida nasce de um sentimento criativo.

A cerâmica é apenas uma ferramenta fundamental à modelação da matéria, mas é a matéria que determina constância de quem a manipula. O Barro é uma matéria envolvente, natural, fresca, maleável e muito versátil e que permite tão facilmente a sua modelação, como a do seu criador. Em arte terapia não se objetiva a criação de obras de arte, mas sim a construção de emoções de sensações e de reações, recorrendo a esta ferramenta como forma a inverter os processos no despertar criativo, não como objeto de interesse, mas como objeto reator. A pele por sua vez, tem um incrível papel nas emoções face à sua extrema sensibilidade. É através do tato que exploramos a maior parte do que nos estimula no exterior. No entanto, somos todos diferentes, nas capacidades, nas potencialidades, nas características, não possuindo de facto nem todas as faculdades nem todos os sentidos, pelas mais diversas razões. Para alguns a estimulação sensorial está comprometida, pela ausência parcial ou total dos sentidos ou pela inaptidão ou comprometimento cognitivo.

“Porque as diferenças das pessoas, não podem constituir barreiras à Inclusão, persistimos na equidade, visando a igualdade eficiente à oportunidade de ser e de sentir.”

ser consciente do que somos, conduz-nos à evolução e a desobstrução de barreiras à Igualdade. A igualdade é um direito transversal a toda a humanidade. Mas não há forma de exercer este direito sem Equidade, e a Equidade é a chave para a praticabilidade da Igualdade. Para iniciar tal processo temos que primeiro saber ser, para saber compreender e só compreendemos o que sentimos e só sentimos o que percepcionamos.

Quando percecionamos uma limitação e nos dispomos a supera-la, começa o maravilhoso ato de criar, e quando começamos a criar para o outro, com objetivo de criar felicidade além de nós, iniciamos a sublimação do nosso potencial criativo. Quem sabe o expoente máximo da nossa experiencia individual, no mundo, a obra prima da humanidade que o “ego” procura alcançar.

Compreendidas as limitações, abre-se caminho à Integração Sensorial, que se revela como uma ferramenta preciosa na promoção de estímulos desencadeados pelo exterior. É um processo invertido que resulta quando o interesse de explorar está ausente na pessoa, e o técnico, o promove, através da experimentação de agentes reativos. E assim como existem estímulos que nos atraem, existem os que nos causam repulsa. Mas quando a técnica aplicada, exerce sucesso, é visível a manifestação de apreço e satisfação sentida, conduzindo ao registo na memória da Pessoa, o processo para repetir a prazerosa experiência, que a terapia promove. Curiosamente é esta a forma de mensurar a importância da Estimulação Sensorial na construção cognitiva das pessoas, por esta ser, uma experiência consciente e coadjuvada.

Algumas técnicas e ambiências terapêuticas, bebem da Estimulação Sensorial na compreensão dos seus processos, compreendendo a necessidade da recriação de ambiências, com é exemplo as salas de snozelen, as oficinas criativas, as quintas pedagógicas, os aquários, os spas, as termas e muitas outras. Estes são espaços, de extrema importância para o uso de técnicas e atividades exploradoras dos sentidos, por via do contacto, da manipulação, da observação e consequente interação, sobretudo quando a intervenção inclui matérias primas.

Poderia  dizer que a Intervenção Sensorial é um jogo didático, que se realiza em contexto estimulante e em que  o objetivo, é  descobrir os sentidos ativos e  competentes na construção  ou reconstrução de  “pontes simbióticas”, de fora para dentro, entre o ser humano e o seu meio em redor, permitindo um acesso prescrito e assistido a um percurso intrínseco ao ser humano ( Estimulação Sensorial), ausente, interrompido ou incompleto em algumas pessoas, mas vital à interação social e à promoção da auto estima e bem estar e felicidade. Em suma o que importa à realização e felicidade em qualquer pessoa.

A terra é por excelência o aporte mais importante numa ambiência terapêutica, porque comporta a maior parte dos recursos da Natureza. A terra nos seus diferentes contextos, tem cheiro próprio, sabor próprio, temperatura própria e texturas incrivelmente sensuais que se manifestam para os sentidos humanos como balsamos naturais, estimulantes e promotores de bem-estar.

Neste jogo a argila tem na sua plasticidade, características multifacetadas, permitindo a modelação de qualquer forma, que se também se desforma, mas que se recupera, num processo de auto reconstrução, semelhante às emoções. O barro é terra! E por ser uma matéria-prima, tem na sua génese, materiais orgânicos e minerais, semelhantes aos que existem no nosso organismo, que também se compreende como matéria prima, beneficiando-se assim através da pele e criando uma simbiose primordial nos sentidos, físicos e emocionais.

Por esta razão as oficinas são reconhecidas como locais terapêuticos e transcendentais pois a realização pessoal de quem os procura, reflete-se tanto no prazer de construir como no que resulta do conseguir.

Da atracão das matérias (o Animal e a Terra), animada e inanimada, compreendo que se despertem memórias ancestrais. Como se a carne se reconhecesse no pó da terra e vivenciasse sinergias memoriais, enraizadas no subconsciente coletivo, mas singular em cada um, estimulando pedaços de poesias, de momentos intensos, vividos e revividos a cada instante e a cada toque. Todo o sensorial despertado e tão sobejamente incompreendido.”

 Texto da autoria de: Cristina Santos, responsável pelo Atelier de Cerâmica da Fundação AFID Diferença                                                                                       

Atualizado em 22-Fev-2019 | Partilhar:

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