Na oficina de cerâmica são sempre os pormenores que nos definem. E contam, substancialmente, no momento em que fazemos o nosso trabalho e na forma como o fazemos. Não obstante, fugir amiúde, ao que pretendemos de fato fazer, sem, contudo, tal efeito, perca a beleza pretendida.
E é, de fato, nos desvios do processo inicial, que nos deparamos com incríveis pormenores que determinam a essência criativa deste grupo e de cada um de nós. Vou contar uma história a que tive o privilegio de assistir.
Era uma vez um coração partido…
Todos os dias, na Oficina de Cerâmica, entre várias tarefas das quais era responsável, o ceramista Miguel Tintas, ocupava parte do seu tempo a fazer bolas perfeitas e de tamanhos idênticos. A superfície destes objetos, caso fosse respeitado um determinado tempo, adquiria um polimento perfeito, ideal ao propósito destinado. Contudo, tal processo era perdido caso o Miguel, ultrapassasse o tempo necessário para o efeito. O que acontecia muitas e muitas vezes, bastando para isso uma pequena distração.
Com efeito, as bolas começavam a rachar e deixavam de ser possíveis de utilizar. Assim, seguiam o normal caminho da reciclagem, que outro jovem recuperava e preparava para poder voltar às mãos do Miguel, transformando-as pacientemente em novas bolas, umas perfeitas outras imperfeitas.
Dia após dia, ano após ano, o Miguel Tintas quando se distraia, via perder grande parte do seu trabalho, destinando-o à reciclagem, porque imperfeito, já não tinha lugar nas obras criadas em grupo.
Mas um dia, o Miguel quebrou o processo. Alguém, ao esmagar uma das suas bolas imperfeitas, observou que esta não de desfazia. Um único pormenor, que permitia a conformação simples de um elemento naquela árida textura e que mudaria para sempre, toda a estrutura conceptual da equipa da Cerâmica.
Um olhar atento a um coração… perfeito
Tanto tempo conformados com a perda das preciosas e perfeitas bolas do Miguel, não percebemos o potencial do defeito criado pelo jovem criativo.
E, assim, nasceu o “coração partido”, uma peça concebida não pela via da perfeição dos processos, mas pelo reconhecimento do belíssimo efeito da imperfeição.
Por direito próprio, o Miguel Tintas viu reconhecida pelos nossos parceiros, a surpreendente singularidade de uma peça de sua autoria, quando lhe pediram para ilustrar a temática de um grande evento, com os seus “Corações Partidos”. A equipa percebeu a necessidade de ajuda e partilha com outras equipas e promoveu as condições necessárias para a realização e sucesso de tão grande desafio. Assim o Miguel Tintas, iniciou um processo formativo, escolhendo para o efeito a Monitora Andreia Brito, que disseminou pelas restantes equipas do Centro de Atividades Ocupacionais (CAO), todo o saber concedido pelo Miguel e a possibilidade de executar com a mesma perícia a sua criação, reproduzindo-a em número necessário, 300 peças.
Hoje, na AFID, são raros os técnicos e clientes, que não sabem como é que se constrói um coração partido, embora muito poucos o consigam fazer. É que o coração possui um segredo. É que só quem tem “mãos quentes” consegue construir o coração, pois esta não é uma técnica da Cerâmica, mas sim um “defeito” produzido no decorrer do um processo. Um segredo descoberto ao acaso, depois de muito tempo ignorado, mas muito em tempo de lhe ser reconhecido, o seu devido valor.
E não é assim com a vida? Certa estou de que a magnitude da vida, acontece quando retiramos e aproveitamos o que há de melhor ao nosso redor. São ténues as diferenças entre o que se entende por perfeito e os frágeis meandros do que sentimos imperfeito.
E partilhar o que de melhor temos e o que de fato sabemos, é talvez o único caminho para viver intensamente uma boa vida.
Texto da autoria de: Cristina Santos, responsável pelo Atelier de Cerâmica do Centro de Atividades Ocupacionais (CAO)
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