Valorização do vínculo afectivo no SAD

Copyright ©2018

Vivemos mais anos, é verdade, e esta realidade comporta a necessidade de adaptação às perdas que ocorrem ao longo da vida, porque viver mais, significa, por exemplo, ver os familiares partirem do convívio por morte ou pelo distanciamento que a vida moderna comporta.

Em pouco tempo, a pessoa vê-se compelida a reconstruir os seus vínculos, a procurar novas formas de viver o seu dia a dia, mas mantém-se a vontade em não deixar de viver na sua casa. A casa de cada um é um castelo construído pelo somatório das memórias ali vividas.

Incontornável, também é, para a pessoa apoiada no Serviço de Apoio Domiciliário (SAD), ter de aprender a conviver com pessoas, até aí, completamente desconhecidas, deixando para trás o seu estilo de vida e com a qual se identificava. Ao falar do SAD e do domicílio, vem-me sempre a ideia da importância da “chave de casa”, o valor simbólico da entrada do nosso reduto mais intimo, que é a nossa casa! É certo que as regras do SAD definem a necessidade de identificação de uma pessoa concreta para a responsabilidade dessa tarefa principal, que consiste no poder entrar em casa da pessoa apoiada, em última análise sem precisar de outra autorização.

Se queremos que o SAD não seja um mero serviço a que a pessoa tem de se submeter por evidente necessidade, então este ato da entrega da chave tem de ser preparado previamente pela equipa cuidadora, equipa que tem de estar disponível para aceitar a escolha da pessoa apoiada, a quem, de facto, quer entregar a chave da sua casa. Isto é, dentro dos limites objetivos do serviço, esta escolha deveria ser sempre uma opção da pessoa apoiada.

A família também deve estar no centro das preocupações. Assim, viver o processo de envelhecimento do familiar constitui um período de transformação e conflito para a família, em que diversos fatores são considerados e contribuem para essa decisão. Este processo representa uma grande mudança na vida do idoso, despoletando e acentuando a vivência de uma série de perdas.

Retrospetivamente, o idoso sente, por vezes, com angústia a perda de uma vida ativa, onde, até certo ponto, podia ser o dono do seu mundo e senhor de todas as suas ações. Os cuidados domiciliários marcam o encontro com um ambiente de regras na sua própria casa que não têm sempre em conta a sua individualidade ou a sua história de vida.

Assim, esta decisão de aceitação dos cuidados domiciliários, dependendo das circunstâncias, mobilização e do estado de saúde e funcional das pessoas, deve ser antecedida duma fase de preparação de dias ou mesmo semanas.

Qualquer mudança conduz o individuo a experienciar algum stress, independentemente das características se conotarem como ganhos ou perdas, afetivamente negativas ou positivas. No que concerne às características do ambiente da transição para o SAD, devemos considerar as relações intimas, a unidade familiar e a rede de amigos como fundamental para a manutenção dos vínculos efetivos da pessoa, e, naturalmente, criar novos vínculos com a equipa cuidadora.

SIM! Mas Como? Se a, equipa roda, muda, altera-se, criando um frenesim de entrada e saída de pessoas estranhas, que nunca se chegam a conhecer… não permitindo à pessoa apoiada que sinta que na sua casa se mantém uma das regras de ouro de toda a sua vida que é: – em nossa casa recebemos pessoas que gostamos.

Este rodopio de trabalhadores impede, de todo, a vinculação essencial para garantir que a equipa cuidadora se constitui como um acréscimo ao seu grupo de amigos.

Por outro lado, amigos e família conferem coerência, interesses comuns e afetividade que facilitam o processo de adaptação à nova realidade que caracteriza o SAD.

Ou seja, tendemos a associar a manutenção do vínculo afetivo no SAD aos ajudantes domiciliários e técnicos que acompanham a pessoa e depois a esquecermo-nos que somos nós mesmos os responsáveis pela manutenção dos restantes vínculos da pessoa.

Esta questão de preservar os vínculos pré-existentes ao SAD, comporta uma tentação errada, mas comum, por parte dos cuidadores que valorizam de tal modo o seu próprio serviço, que induzem a pessoa apoiada a focar-se, preferencialmente no SAD, desvalorizando outros apoios, eventualmente pré-existentes, vindos da família ou mesmo da comunidade. É o exemplo típico da sopa/alimentação com que a vizinha, há muito tempo, apoiava a pessoa necessitada e que agora, com a SAD, fornecedor de uma alimentação mais qualificada, torna desnecessária tal ajuda.

Ora, por vezes, não é o valor alimentar da sopa/alimentação que está em causa, mas sim a circunstância de se estar próximo de quem se gosta…e isso tem um valor emocional muito mais relevante do que o valor alimentar do prato da sopa. Sim, é verdade, os cuidadores também são responsáveis pela manutenção dos restantes vínculos das pessoas apoiadas.

Para Colliére “cuidar é um ato individual que prestamos a nós próprios, desde que adquirimos autonomia, mas é igualmente, em ato de reciprocidade que somos levados a prestar a toda a pessoa que temporária ou definitivamente, tem necessidade de ajudar para assumir as suas necessidades vitais.”

No SAD, a interligação da pessoa apoiada com os cuidadores leva à compreensão do outro na sua singularidade, garantindo, assim, que a prestação de serviços no SAD seja de forma individualizada.

É também decisiva a aposta nas redes de apoio aos cuidadores informais, sejam familiares ou não. Esta rede é normalmente muito disponível, mas com poucos conhecimentos técnicos, pelo que um dos vetores estruturantes do SAD tem de assumir a necessidade de se envolver no apoio, nas transmissões do saber fazer a estes cuidadores informais, de modo a manter a motivação e vinculo afetivo com a pessoa apoiada.

É hoje perfeitamente assumido que há uma estreita relação entre o SAD e as novas tecnologias.

Esta convivência é real e inultrapassável. A tecnologia está a revolucionar este tipo de prestação de serviços, nomeadamente na sua componente mais decisiva, que é a comunicação entre a pessoa apoiada e a equipa cuidadora ou com a rede de familiares e de amigos.

Mas, por mais tecnologias que incorporemos no serviço, ficaremos sempre agarrados a opções que não satisfazem, se nos esquecermos, porque somos seres humanos. Nada, mas mesmo nada, dispensará o toque, o afago, o carinho, o calor da pele, a força libertadora de um abraço. Tecnologia e toque são seguramente as âncoras de um SAD com futuro!

Pelo que, a idade avançada ou a dependência, não podem eliminar o sentido mais profundo da vida, que é a vontade de ser FELIZ. E para a felicidade conta objetivamente o conforto e a satisfação das necessidades, mas não é o bastante, nem suficiente. A vinculação positiva com quem interage com a pessoa é que dá corpo ao sorriso quando se vai deitar para dormir!

Texto da autoria de: Carlos Andrade, vice-presidente do Conselho Executivo da Fundação AFID Diferença

Atualizado em 22-Fev-2019 | Partilhar:

Entre em Contacto

Telefone (+351) 214 724 040
Email: info@afid.pt
R. Quinta do Paraíso, Alto Moinho
2610-316 Amadora, PORTUGAL

Livro de Reclamações
(Email: fundacao@fund-afid.org.pt)

2019 ©

Rodapé PT

Fundação AFID DiferençaTermos LegaisSiga-nos no FacebookCanal YouTubePerfil TwitterSiga-nos no InstagramSiga-nos no LinkedIn
 
Certificações